Aos 16 anos, a zagueira Kaillany Ranifah, do Corinthians Feminino Sub-17, vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória no futebol. Convocada para representar a Seleção Brasileira na Copa do Mundo Feminina Sub-17, disputada no Marrocos, a defensora relembrou os desafios enfrentados desde a infância, quando precisava percorrer longas distâncias sozinha para conciliar os estudos e os treinamentos. Em entrevista divulgada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a atleta destacou a determinação que a acompanhou até a realização do sonho de disputar um Mundial.
Antes de chegar às categorias de base do Corinthians, Ranifah enfrentava uma rotina desgastante. Aos 13 anos, acordava por volta das 4h para sair de São Paulo em direção a São Caetano do Sul, onde estudava. Depois das aulas, dividia o tempo entre os treinamentos de futebol de campo e futsal, retornando para casa, em algumas ocasiões, somente às 22h. Durante esse período, utilizava trens, ônibus e, eventualmente, recebia caronas de familiares de outras atletas.

A zagueira contou que, diferentemente de algumas companheiras, nem sempre tinha alguém da família para acompanhá-la nos deslocamentos. Apesar das dificuldades, o desejo de seguir no esporte foi determinante para continuar buscando oportunidades.
“Eu nunca tive tudo na mão. Tinha que acordar cedo, pegar trem e ir lá, mas era porque eu gostava mesmo. Eu me esforçava desde pequena. Tinha uns 13 anos, pegava trem, ônibus e ia atrás. Tinha que ser forte, porque todo mundo ia com o pai e a mãe. Era eu por mim mesma”, relembrou.
O interesse pelo futebol começou ainda na infância. Aos oito anos, Ranifah costumava jogar descalça com os meninos da vizinhança e recebeu incentivo de um primo, que passou a procurar oportunidades para que ela ingressasse em uma equipe feminina. A primeira experiência aconteceu no Centro Olímpico, em São Paulo, onde foi aprovada em uma avaliação e permaneceu aproximadamente cinco meses.
Posteriormente, a defensora recebeu uma oportunidade no São Paulo, integrando a categoria Sub-15. Durante a passagem pelo clube, continuou conciliando as atividades no futebol de campo e no futsal. Em 2024, transferiu-se para o Corinthians, equipe que defende atualmente.
“A gente treinava no campo à tarde, no São Paulo. E, de noite, a gente ia para o futsal. Fiquei dois anos no São Paulo. Em 2024, fui para o Corinthians e estou lá até hoje”, contou.
A escolha pelo futebol também exigiu que Ranifah conquistasse o apoio dos familiares. Seu pai, professor de Muay Thai, inicialmente a incentivava a seguir no universo das artes marciais, enquanto a mãe ainda demonstrava dúvidas sobre a possibilidade de a filha construir uma carreira esportiva. Com o passar do tempo, entretanto, os dois passaram a acompanhar de perto sua evolução.
“Ele queria me levar para a luta. Comecei lutando. Só que, quando eu peguei na bola, já era. Minha mãe não me apoiava tanto. Hoje, meu pai e minha mãe são meus fãs. Ela é a primeira a colocar o jogo para assistir na TV, manda foto e tudo”, revelou.
A trajetória da zagueira nas seleções brasileiras de base também foi marcada por dificuldades. Com nove convocações, Ranifah chegou à temporada de 2026 depois de superar uma lesão sofrida durante um período de treinamentos no ano anterior, problema que a impediu de participar da edição passada da Copa do Mundo da categoria.
Após a recuperação, a atleta voltou suas atenções ao Campeonato Sul-Americano Sub-17 de 2026, competição na qual conquistou o título com a Seleção Brasileira. O desempenho garantiu sua continuidade nas convocações e, posteriormente, uma vaga na lista definitiva para o Mundial no Marrocos.
“Ano passado, fui convocada para um período de treinos e me lesionei. Fiquei fora da Copa do Mundo. Primeiro, pensei no Sul-Americano deste ano. Eu fui e fui campeã. Fui para o período de preparação na Granja e fiquei na lista final para vir para o Marrocos. Fiquei muito feliz. Acho que o trabalho devolve. Eu trabalhei, tive que superar a lesão”, comemorou.
Durante a disputa da Copa do Mundo, Ranifah também teve participação importante dentro de campo. Na segunda rodada da fase de grupos, a defensora marcou um dos gols do Brasil no empate por 3 x 3 diante de Gana. Além disso, destacou o aprendizado proporcionado pela experiência internacional, especialmente em relação à exigência tática e à intensidade das partidas.
Entre os momentos mais marcantes da competição, a corinthiana mencionou o confronto contra a Polônia. Antes da partida, recebeu orientações da treinadora Rilany, que a incentivou a demonstrar suas características e atuar com maior confiança. Segundo a atleta, a conversa contribuiu diretamente para seu desempenho.
“Eu estava me sentindo um pouco retraída, e a orientação foi para eu ser eu mesma, colocar para fora. Contra a Polônia, entrei superconectada com tudo. Consegui entender o que estavam falando de fora e colocar em prática. Acho que foi o que mais marcou, porque sei que estou evoluindo como atleta”, analisou.
Agora, Ranifah e a Seleção Brasileira se preparam para mais um desafio decisivo. A equipe enfrentará a Nigéria nesta quarta-feira (4), às 15h (de Brasília), pelas semifinais da Copa do Mundo Feminina Sub-17. O confronto vale uma vaga inédita na decisão da competição, já que o Brasil busca alcançar sua primeira final na história do torneio.
Para a defensora do Corinthians, a classificação dependerá da capacidade da equipe de enfrentar a intensidade da adversária e manter a concentração durante toda a partida.
“Vai ser um jogo em que teremos que competir em cada bola, em cada duelo. Vamos ter que suportar o jogo, aguentar a pressão e jogar o jogo que o jogo está pedindo”, projetou.
A determinação demonstrada desde os primeiros passos no futebol também ganhou um significado especial fora das quatro linhas. Depois de conquistar o Sul-Americano Sub-17 com a Seleção Brasileira, Ranifah decidiu tatuar a expressão em inglês “Stay Stronger”, utilizada por ela como uma mensagem para permanecer forte diante das dificuldades.
A escolha representa os obstáculos enfrentados ao longo da carreira, desde as viagens solitárias para os treinamentos até a recuperação da lesão que adiou sua estreia em uma Copa do Mundo. Para a jovem zagueira, a frase vai além do esporte e resume uma postura que pretende manter durante toda a vida.
“Eu acho que na vida a gente tem altos e baixos. No mundo do futebol, tem muitos altos e baixos, e a gente tem que permanecer forte, independentemente de tudo. É uma palavra de grande impacto e que é essencial na minha vida”, concluiu.
Agora, Ranifah e a Seleção Brasileira voltam a campo nesta quarta-feira (4), às 15h (de Brasília), para enfrentar a Nigéria, pelas semifinais da Copa do Mundo Feminina Sub-17, no Marrocos. A equipe brasileira busca uma classificação inédita à final da competição. Na outra semifinal, Japão e Coreia do Norte se enfrentam às 12h.
Fonte: Central do Timão







