
O Corinthians inicia um novo capítulo sob o comando de Fernando Diniz. Apresentado oficialmente nesta terça-feira no CT Dr. Joaquim Grava, o treinador detalhou suas ideias para a equipe, reforçando um estilo já conhecido no futebol nacional: valorização da posse de bola, troca de passes, movimentação constante, com participação ativa até mesmo do goleiro na construção das jogadas.
Um dos pontos abordados foi justamente a saída de bola com Hugo Souza, alvo frequente de críticas por seu desempenho com os pés. Diniz, no entanto, citou experiências anteriores para demonstrar confiança na evolução do arqueiro, destacando que o desenvolvimento passa mais pelo coletivo do que por uma característica individual.
“Trabalhei com o Fábio no Fluminense, um goleiro que tinha mais de 40 anos e quase não jogava com os pés, mas que evoluiu muito nesse aspecto. No caso do Hugo, acredito que ele tenha um jogo com os pés melhor do que as pessoas imaginam. Jogar dessa forma é, acima de tudo, uma questão de oferecermos opções para facilitar a saída de bola; o jogo precisa ser simples para o arqueiro. Ele não é o Garro ou o Memphis; ele é o goleiro. Portanto, nosso papel nos treinamentos é criar boas linhas de passe e dar confiança para que ele tome a melhor decisão”, iniciou.
Ao aprofundar o tema, o treinador buscou desmistificar a ideia de um modelo engessado. Em sua visão, suas equipes não se limitam ao jogo curto e também utilizam a ligação direta quando necessário, dependendo do contexto da partida. A leitura do jogo, segundo Diniz, é essencial para definir o momento de acelerar ou cadenciar as ações, e ele acredita que Hugo pode evoluir nesse entendimento ao longo do trabalho.
“Diferente do que as pessoas pensam, muitas vezes as equipes que dirijo são as que mais utilizam bolas longas. Em vários momentos desse último trabalho no Vasco, jogamos com muito mais ligação direta do que tentando um jogo elaborado na saída de bola. Acredito que o Hugo vá evoluir ainda mais nesse aspecto; em minha opinião, ele já possui uma técnica melhor do que se imagina. Ele saberá tomar as melhores decisões, junto ao time, para identificarmos o momento de jogar curto ou de alongar o passe“, complementou.
A metodologia do novo comandante também foi destacada durante a coletiva. Diniz reforçou que a construção de um time campeão acontece diariamente, desde os treinamentos até os jogos, e não apenas nas decisões. Para ele, um clube do tamanho do Corinthians precisa incorporar essa mentalidade no cotidiano, criando uma cultura de competitividade constante.
“Acredito que todo dia é dia de disputar título. Isso faz parte da minha essência, do que penso sobre o futebol e sobre a vida. Não ganhamos o troféu apenas no dia da final; nós o conquistamos hoje, amanhã e depois de amanhã. É uma filosofia que procuro aplicar em todos os clubes por onde passei, e aqui no Corinthians não será diferente. Um time desta grandeza precisa pensar em título diariamente: acordar e trabalhar com o foco exclusivo na vitória”, afirmou.
Além disso, o treinador ressaltou o peso da camisa alvinegra e a relação com a torcida. Diniz classificou como um privilégio comandar o clube e apontou o comportamento da Fiel como referência. Na avaliação do técnico, o grande desafio será fazer com que o time em campo reflita a intensidade e a entrega demonstradas nas arquibancadas.
“É um privilégio para todos nós estarmos no Corinthians. Trata-se de um clube gigantesco, com uma torcida que dispensa comentários — é a torcida por excelência, algo reconhecido por todos. Até vir jogar contra aqui é gratificante, pois é sempre um espetáculo à parte. Nosso maior desafio é trabalhar para que o time corresponda à grandeza dessa torcida e, principalmente, à maneira como ela reage em todos os momentos. A torcida do Corinthians entra em campo para ganhar títulos toda vez que vai ao estádio e precisamos aprender com ela a ter essa mesma mentalidade”, comentou.
Mesmo com a expectativa por mudanças táticas, o comandante deixou claro que aspectos comportamentais terão prioridade neste início de trabalho. Segundo ele, vontade, solidariedade e coragem são inegociáveis, enquanto ajustes mais complexos serão implementados gradualmente. Para Diniz, nenhuma organização tática é capaz de compensar a falta de atitude dentro de campo.
“Afirmo isso há algum tempo: as principais características das equipes que dirijo são a entrega, a solidariedade e a coragem. Acredito que esses elementos são inegociáveis; a parte tática nós ajustamos gradualmente. Diferente do que muitos pensam, a tática nunca terá prevalência sobre a postura e o espírito do time”, disse.
“Não existe domínio tático que supere a falta de ânimo, de vontade ou de coragem. Precisamos ser um clube que pulsa raça, fome, desejo e valentia. Essa mentalidade é o pilar fundamental e deve estar presente desde o início. Há apenas dois meses, este grupo conquistava a Supercopa do Brasil; em pouco tempo, o cenário mudou, mas ninguém desaprendeu a jogar. Há um potencial enorme neste elenco que precisamos resgatar o quanto antes”, pontuou.
Por fim, o treinador voltou a relativizar rótulos sobre seu estilo de jogo, destacando que suas equipes se adaptam às circunstâncias. Em determinados momentos, podem priorizar a posse; em outros, adotar uma postura mais direta ou reativa, sempre de acordo com as demandas do jogo.
“Quanto ao modelo de jogo, não acredito que meus trabalhos fiquem presos a uma única forma de atuar. Existem particularidades que a equipe explora quando há possibilidade, mas, como mencionei, em todos os clubes por onde passei houve momentos de priorizar a bola longa em vez do jogo curto. Se recordarem da final entre Vasco e Corinthians aqui na Arena, adotamos uma postura de esperar mais o adversário do que propor a saída jogando. É uma questão de analisar o contexto com atenção”, completou.
Regularizado na noite desta terça, Fernando Diniz estará à beira do campo já na estreia do Corinthians na fase de grupos da Libertadores, diante do Platense, na Argentina. Enquanto isso, o futuro de Memphis Depay segue como uma das principais incógnitas no Parque São Jorge.











