
No início do mês de agosto, o noticiário corinthiano ficou marcado pelo imbróglio envolvendo as tratativas na renovação contratual de Memphis Depay com o clube alvinegro. Nesta sexta-feira, o presidente Osmar Stabile comentou sobre as tratativas.
Após período de férias, o atacante de 32 anos viveu um impasse quanto à renovação contratual. Corinthians e Memphis chegaram a um acordo por um novo vínculo de duas temporadas, mas o Timão recuou ao alegar “questões financeiras” em comunicado oficial no último dia 11.
Contudo, as partes se reuniram na semana posterior em meio à pressão da torcida contra a diretoria comandada por Osmar Stabile e readequaram os valores para selar o contrato. O mandatário esclareceu o status do jogador durante esse período de indefinição
“Nunca existiu esse ‘não renovaria mais’. O Corinthians estava negociando e o contrato dele não tinha acabado ainda. Ele estava cumprindo as férias a que tinha direito — período que foi adiado devido ao calendário do ano passado e à convocação para a Copa do Mundo. Como ainda tinha contrato vigente, ele precisava se apresentar ao retornar para realizar os exames de rotina. Além disso, ele veio por conta própria, pagando a própria viagem, sem exigência do clube“, esclareceu em entrevista à ESPN.
“As conversas com a equipe dele travaram em um primeiro momento porque o Corinthians não tinha capacidade financeira para atender às exigências iniciais. Como presidente, coube a mim tomar a decisão de travar o acordo para não deixar uma ‘herança maldita’ e endividar o clube, assumindo as consequências dessa escolha”, complementou.
A aparente ruptura, no entanto, foi estratégica. Longe dos holofotes e das equipes de empresários, a presidência adotou uma postura mais pessoal, restabelecendo a comunicação direta com o atleta holandês para buscar um denominador comum que mantivesse o camisa 10 no Parque São Jorge.
“No entanto, o Corinthians nunca encerrou a negociação de fato. Logo após essa pausa por questões financeiras, retomei o contato diretamente com o Memphis na quarta-feira anterior e reabrimos o diálogo buscando o melhor para a instituição”, recordou.
Apesar do clima efervescente nos bastidores e da forte cobrança nas redes sociais por parte da torcida, o presidente negou categoricamente que as decisões tenham sido pautadas por pressões externas. O dirigente reforçou sua autonomia junto ao departamento de futebol na condução das negociações.
“Não tive nenhuma pressão política. Essa história foi da mídia baixa e das redes sociais. O ambiente é político e a pressão existe em todos os lados, mas fiquei à vontade para tomar a decisão. Informei o departamento de futebol e o técnico antes de agir. A partir do momento em que não conseguimos prosseguir na primeira negociação, abriu-se a possibilidade de um diálogo direto entre mim e o jogador. Ambos tínhamos a vontade de que ele ficasse. Tiramos as equipes de lado, tratamos diretamente e chegamos a um acordo”, comentou.
Para blindar o acordo de futuros questionamentos e demonstrar total transparência institucional, o novo formato do vínculo foi avaliado pelo Conselho de Orientação (Cori), que concordou com a renovação contratual. A aprovação do conselho validou o esforço da gestão em adequar o alto custo do camisa 10 à realidade estatutária.
“Por ser um cumpridor do estatuto, fiz questão de levar o contrato ao Cori, já que valores acima de 40 mil salários mínimos exigem essa aprovação. A nossa equipe entendeu da mesma forma e tivemos o aval do Conselho, o que dá respaldo para o futuro. Fiz o que era melhor para a instituição. Deu tudo certo, ele jogou bem a última partida e está empenhado. O assunto é página virada, hoje conversamos bastante e somos parceiros em prol do Corinthians”, disse.
O realinhamento das bases financeiras foi o grande trunfo para o desfecho positivo. Sem expor cifras, a gestão garante que o novo escopo contratual trouxe o equilíbrio necessário, deixando ambas as partes confortáveis para que o foco retorne exclusivamente ao rendimento dentro de campo.
“Não quero falar em valores, não cabe a nós expor isso, mas o motivo foi financeiro. Nós conseguimos alinhar alguns pontos com os quais eu não concordava, não estava satisfeito nem feliz, e sentia que não dava para continuar daquele jeito naquele momento. Coloquei a situação para ele, ele entendeu e nós chegamos a um acordo. Tanto é que ele está feliz lá trabalhando: treinou ontem o tempo todo, está supercontente. É isso o que nós queremos: o jogador satisfeito e a instituição também satisfeita“, completou.
Polêmicas envolvendo clipe e cláusula ‘anti-política’ para atletas
Apesar do acordo com o novo contrato, Memphis e diretoria voltaram a entrar em leve conflito após o lançamento do videoclipe “Don’t Panic” (“Não entre em pânico”), no último dia 21. O material trouxe diversas referências à novela da renovação e recados cifrados à diretoria.
A repercussão da música acendeu um sinal de alerta na cúpula corinthiana. O diálogo rápido e franco com o holandês foi fundamental para mostrar os riscos de segurança, evitando que a insatisfação virtual se transformasse em protestos físicos no clube, o que gerou uma rápida retratação do jogador.
“Nós conversamos logo após o ocorrido. A gente conversou com ele e mostrou o grau de gravidade do que poderia acontecer, já que tinha um grupo de torcedores que viria ao clube no dia seguinte e isso poderia motivar algum incidente por aqui. Mostramos tudo a ele. Ele, sensibilizado, soltou uma nota logo em seguida. Acho que as coisas já caminharam e se resolveram. Ele também retratou depois aquela questão sobre ‘quem manda é o escudo do Corinthians’ — que talvez tenha sido apenas uma maneira dele promover a música dele —, e aí toda a situação se resolveu. Graças a Deus ele já está aí trabalhando conosco e não há problema nenhum”, comentou.
Episódios extracampo levantaram o debate sobre os limites de atuação dos atletas. Como resposta, a atual gestão confirmou a existência de diretrizes contratuais rigorosas que proíbem manifestações políticas, visando blindar o vestiário das efervescentes disputas que historicamente prejudicaram o time.
“Sim, existe essa cláusula. Ela está bem clara no contrato dele e no de todos os novos atletas que trouxemos. Antes, existia um envolvimento político muito grande dos jogadores, e isso atrapalha. Procuramos mantê-los o mais afastados possível. Passamos por momentos turbulentos, mas conseguimos ser campeões da Copa do Brasil e da Supercopa, o que mostra que soubemos separar o futebol da política do clube”, afirmou.
“Todos os novos contratos contêm essa cláusula. Além disso, hoje o futebol está muito bem separado fisicamente: no Parque São Jorge fica a política, os conselheiros e os associados, enquanto o futebol profissional, o feminino e a base trabalham em seus respectivos CTs, de forma tranquila e sem interferência política”, prosseguiu.
Sobre eventuais atritos gerados pelas entrelinhas do videoclipe envolvendo figuras eleitas, como o vice-presidente Armando Mendonça, o mandatário procurou minimizar qualquer crise institucional. Ele reforçou a legitimidade estatutária dos cargos e preferiu tratar as letras da música como uma incógnita meramente artística.
“Ele é um vice-presidente eleito. Primeiro pelo associado e depois, evidentemente, empossado pelo Conselho Deliberativo. Então, ele é um vice-presidente eleito e eu não posso fazer nada contra o Mendonça, porque ele tem que trabalhar dentro das possibilidades que lhe foram dadas pelo estatuto. Não tem o que fazer: ele está trabalhando lá. Eu também comento com vocês sobre a questão da música dele com o Memphis Depay. Sobre a música, na verdade a gente não sabe: ele colocou ‘um vice-presidente’ lá, mas pode ser até o vice-presidente da República, ninguém sabe quem é“, apontou.
Gestão acima da política, finanças e o peso global de Memphis
Ao defender suas atitudes severas na renegociação, Stabile destacou que o foco absoluto é o saneamento administrativo do Corinthians, mesmo custando sua própria popularidade. A reformulação em curso exige o corte de laços antigos em prol de uma gestão focada puramente na reconstrução técnica e financeira.
“A gente não olha a parte política em hipótese alguma; pensamos sempre no que é melhor para a instituição. Se quiserem que eu continue no Corinthians politicamente, vão dar o aval; se não quiserem, vou para a minha casa sem problema nenhum. Eu tomo atitudes e não posso olhar a política, porque, se for olhar para isso, não faço nada dentro do clube. Muitas melhorias e mudanças administrativas e financeiras estão acontecendo dentro do Corinthians de forma silenciosa. Elas podem até chatear alguém por tirarem pessoas que estavam envolvidas há muitos anos aqui dentro, mas são mudanças necessárias que precisamos fazer”, comentou.
Por fim, longe de causar incômodo, a manutenção do craque é vista como um trunfo mercadológico global. Apesar das limitações orçamentárias atuais não permitirem novas loucuras no mercado, a presença internacional do camisa 10 simboliza o peso da camisa corinthiana e o início seguro da reestruturação que a diretoria almeja consolidar a longo prazo.
“Ele é um astro internacional. Senti isso na pele quando estava em Nova York para a Copa do Mundo: pessoas de fora me procuravam por causa da camisa do Corinthians, chamando de ‘o time do Memphis Depay’. Se alguém não gosta, não é problema do presidente; eu quero ter um time competitivo”, declarou.
“Evidentemente, não dá para fazer grandes contratações neste momento porque não temos recursos para competir com clubes que começaram a se organizar lá atrás. O Corinthians começou a se organizar para o futuro na minha gestão. Entendo que todos querem uma mudança imediata, mas não tenho varinha de condão. Passo a passo e trabalho a trabalho, faremos as mudanças necessárias. Não penso politicamente. Se amanhã quiserem que eu deixe o Corinthians, perfeitamente, já fiz a minha parte e estou garantindo que ela está sendo muito bem feita”, finalizou.






