Nesta quinta-feira, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) denunciou quatro nomes ligados ao Corinthians no âmbito das investigações da retirada de mais de R$ 3,4 milhões em dinheiro vivo dos cofres do Corinthians. O período engloba a acusação de desvio entre março de 2018 e 2023.
A informação foi divulgada pelo Blog do Macedo e confirmada pelo Meu Timão. O possível esquema de apropriação indébita nas finanças do clube, de acordo com relatório do promotor Cassio Roberto Conserino, inclui os seguintes denunciados:
- João Odair de Souza “Caveira”: motorista e assessor de segurança de Andrés Sanchez e consultor de segurança de Duílio Monteiro Alves.
- Roberto Gavioli: ex-gerente financeiro do Corinthians.
- Matias Antonio Romano de Ávila: diretor financeiro do Corinthians no período de julho de 2018 até dezembro de 2020.
- Wesley Lúcio Cavalcante Melo: diretor financeiro do Corinthians nos períodos de fevereiro de 2018 até junho de 2018 e de janeiro de 2021 até dezembro de 2023.
Segundo a promotoria, o desvio seria de aproximadamente R$ 3.472.485,72, que chega a R$ 7,3 milhões em valores corrigidos pela inflação. O montante recebido por Caveira, em formato de “adiantamento”, não continha documentos válidos que comprovassem os gastos. O MP-SP pede para que o ex-funcionário ressarça o clube.
“Com efeito não foram apresentados contratos de prestação de serviços, notas fiscais, recibos idôneos ou quaisquer outros documentos capazes de comprovar a destinação dos valores ao fim que justificou sua entrega evidenciando a supressão do dever de prestação de contas inerente a fidúcia estabelecida”, diz trecho da denúncia.

Wesley Melo (ex-diretor financeiro do Corinthians) ao lado do ex-presidente Duilio Monteiro Alves
Rodrigo Coca/Agência Corinthians
Já os ex-diretores, além de serem enquadrados por apropriação indébita, são acusados de omissão qualificada. Isso porque os dirigentes teriam o dever de fiscalizar os pagamentos, mas não exigiram a demonstração de contas e não impediram o desvio de recursos. A promotoria trata o cenário como “cegueira deliberada“.
“A omissão qualificada do gerente financeiro Gavioli nas duas gestões é evidente. Gavioli fez vista grossa aos gastos de ‘segurança’ e não tratou de conferir as contas, não tratou de exigir documentação hábil a comprová-los. (…) Tanto Matias quanto Wesley disseram que deixavam tudo nas mãos de Gavioli. Isso também pode ser um sinal clássico de cegueira deliberada à medida em que havia irregularidades e ausência de mecanismos mínimos de controle e postura de não querer saber é sintomática nesse sentido”, explicou Conserino.
O MP pede que os três ex-diretores indenizem o Corinthians por danos morais. A solicitação corresponde a 75% do valor dos danos materiais (cerca de R$ 2,6 milhões, além da correção pela inflação). A promotoria ainda requer o bloqueio de bens, a quebra do sigilo bancário e fiscal dos envolvidos e uma perícia contábil para averiguar o cálculo correto do prejuízo.

Andrés Sanchez (ex-presidente) ao lado de Matias Romano Ávila (ex-diretor financeiro)
Daniel Augusto Jr. / Agência Corinthians
A princípio, tanto Andrés Sanchez quanto Duilio Monteiro Alves, ex-presidentes no período investigados, não constam na denúncia. Entretanto, Cassio Conserino afirma a dupla seguirá sob investigação “na possível dinâmica delituosa” em meio à relação de proximidade com Caveira.
Os ex-presidentes, vale lembrar, são réus na Justiça de São Paulo na utilização indevida do cartão corporativo do Corinthians, ao responderem por apropriação indébita. Ambos também são investigados internamente no Timão, cuja Comissão de Ética e Disciplina (CE) recomendou por unanimidade a expulsão de Andrés do quadro de associados.
Relembre o caso
Segundo reportagem do ge.globo, o ex-chefe de segurança do Corinthians, João Odair de Souza, conhecido como Caveira, recebeu mais de R$ 3,4 milhões em espécie entre março de 2018 e dezembro de 2023, sem a emissão de notas fiscais.
De acordo com a investigação, grande parte desses valores não teve comprovação de destino por meio de recibos ou documentos fiscais, o que levantou suspeitas da promotoria sobre a movimentação financeira. O ex-funcionário afirma que a maior parte do montante foi utilizada para pagar seguranças autônomos e alega que a ausência de notas fiscais se deve à natureza desses serviços.
A promotoria indicou que os repasses eram autorizados pelo ex-gerente Roberto Gavioli ou pelos ex-diretores financeiros Matías Romano Ávila e Wesley Melo, que depuseram ao MP-SP. O ex-funcionário afirmou ainda que utilizava parte do dinheiro em espécie para cobrir pequenas despesas ou pagar gorjetas enquanto estava a serviço dos ex-presidentes.
“Aos sábados, domingos e feriados, é preciso contratar muitos seguranças freelancers para o clube. Isso também acontecia quando havia protestos no CT ou no Parque São Jorge. Antes de eu assumir (a chefia da segurança), quem fazia isso era a Atual (empresa de vigilância), que cobrava mais ou menos R$ 450, mas pagava R$ 120, R$ 150 ao segurança. Eu conversei com o Andrés sobre isso, e ele mandou eu falar com o jurídico e o Roberto Gavioli (ex-gerente financeiro)“, disse Caveira ao portal ge.globo.
“Dentro do clube, tem uma série de esportes. Vai ter jogo de vôlei, basquete, futebol de salão… São oito seguranças em cada evento desse. Evento na piscina? 20 seguranças. Teve dia de protesto em que eu coloquei mais de 60 seguranças no CT. Muitos deles eram policiais em horários de folga. PM não dá nota fiscal. Eu não podia nem fazer ordem de serviço“, completou.
Conforme a planilha apresentada pelo Corinthians, houve ocasiões em que ele realizou mais de um saque no mesmo dia. Alguns valores eram elevados, como em outubro de 2023, quando recebeu R$ 129,3 mil de uma única vez. Em contrapartida, também houve repasses menores, como em 29 de outubro de 2020, no valor de R$ 529.
As investigações sobre a circulação de dinheiro em espécie entre funcionários do clube começaram após o ge revelar despesas de caráter pessoal durante a gestão de Duilio. Segundo o Ministério Público, Denilson Grillo, ex-motorista do ex-presidente, recebeu mais de R$ 1,2 milhão em dinheiro vivo ao longo de três anos. Há indícios de que empresas de fachada tenham sido utilizadas para justificar esses gastos e possibilitar o desvio de recursos.











