O Marrocos transformou a abordagem em relação a jogadores com dupla nacionalidade, deixando de ver o recrutamento como último recurso para adotar um projeto esportivo ambicioso. Essa mudança visa consolidar o país como uma potência do futebol, buscando talentos que antes optavam por nações onde nasceram, como ocorreu com Ibrahim Afellay (Holanda), Marouane Fellaini (Bélgica) e Adil Rami (França). A seleção norte-africana, que será a primeira adversária do Brasil na Copa do Mundo de 2026, agora investe fortemente para competir com as grandes seleções globais na captação desses atletas.
Captação de Talentos: Uma Rede Estratégica
Para implementar seu projeto, os 'Leões do Atlas' desenvolveram uma vasta rede de olheiros por toda a Europa. A estratégia consiste em identificar jogadores ainda muito jovens, utilizando a influência familiar e o forte vínculo da diáspora marroquina com o país de origem. Fathi Jamal, diretor técnico da Federação Real Marroquina de Futebol (FRMF), confirma que "desde 2021, estamos comprometidos com uma abordagem orientada para o desempenho, sustentada por uma visão estratégica clara".
Jamal detalha o "modelo híbrido e inteligente" da federação: parte dos jogadores surge da formação local, por meio das categorias de base nacionais e centros de treinamento dos clubes, enquanto outros são descobertos na Europa por uma unidade especializada que monitora jovens talentos com dupla nacionalidade.
O técnico da seleção do Marrocos, Mohamed Ouahbi, explica o processo de contato: "A federação trabalha com listas de jogadores com dupla nacionalidade. E nossos olheiros fazem relatórios sobre todos eles." Se o relatório é positivo, um primeiro contato é feito sem ofertas agressivas de dinheiro. "Quando entra na alçada da minha equipe, eu viajo até o local para conversar com os pais e propor um projeto esportivo a curto, médio e longo prazo", ressalta Ouahbi, que comandou o Marrocos na conquista do título do Mundial Sub-20 em 2025.
O Sentimento dos Atletas e o Impacto nos Resultados
A escolha pelo Marrocos frequentemente ecoa um sentimento profundo de identidade. Ryan Mmaee, que optou pelo país em 2018 junto com seu irmão Sami, relata: "Quando me convocaram, vi que o Marrocos fazia muito esforço para colocar os jogadores em boas condições. Tudo era bem pensado, um verdadeiro projeto. Foi isso o que me seduziu."
Este sentimento é compartilhado por outros atletas chave. Achraf Hakimi, por exemplo, descreveu sua decisão como "uma escolha do coração", após não se sentir totalmente à vontade representando a Espanha, seu país de nascimento. Hakim Ziyech, nascido na Holanda, nunca hesitou em escolher o Marrocos, afirmando: "Eu sempre me senti marroquino, mesmo tendo nascido aqui. Muita gente nunca vai entender esse sentimento."
Uma Trajetória de Sucesso e Conquistas
A ausência do Marrocos na Copa do Mundo de 2018 atuou como um catalisador para essa nova abordagem, focando em talentos como Hakim Ziyech, Achraf Hakimi, Noussair Mazraoui e, mais recentemente, Brahim Díaz e Ayoub Bouaddi. Os investimentos em infraestrutura e a estratégia de recrutamento renderam frutos significativos: o país foi semifinalista na Copa do Mundo de 2022, campeão africano sub-23 em 2023, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris-2024, vice-campeão africano sub-20 em 2025, campeão mundial sub-20 no mesmo ano e campeão africano em 2026.
Debates e Contrapontos Internacionais
A ascensão de jogadores com dupla nacionalidade no Marrocos gerou debates, especialmente em países como Bélgica e Holanda, que investem na formação desses talentos. Rafael van der Vaart, ex-jogador da seleção holandesa, comentou que "os marroquinos que não são bons o suficiente aqui [Holanda] vão jogar pelo Marrocos". Mais comedido, o diretor esportivo da seleção belga, Vincent Mannaert, reconhece que, apesar de os jogadores terem nascido e se desenvolvido na Bélgica, "se em um dado momento não podem escolher a Bélgica, é um direito deles".
Em contraste, outros atletas de destaque, como o jovem craque do Barcelona Lamine Yamal, mesmo sondado pelo Marrocos, optam por representar o país onde nasceram, neste caso, a Espanha, demonstrando a complexidade e a individualidade por trás dessas escolhas no cenário do futebol mundial.













