
Considerado um dos maiores ídolos da história do Corinthians, Roberto Rivellino construiu uma relação de identificação com a torcida que atravessou gerações. Mesmo sem conseguir encerrar o longo jejum de grandes títulos vivido pelo clube na época, o ex-meia recorda com carinho o vínculo criado com a Fiel durante sua passagem pelo Parque São Jorge.
“Era fantástico, era maravilhoso. A gente corria atrás de um título, o clube já estava em um longo jejum, e eu acabei pegando o bonde andando. O que o corinthiano queria mesmo era ser campeão paulista. Mas eu tinha uma relação maravilhosa com a torcida, sempre tive. Nunca tive problemas com eles, mesmo quando saí e criaram toda aquela situação (polêmica após a final do Paulista de 1974)”, iniciou, em entrevista à Central do Timão.
Revelado nas categorias de base do Corinthians, Rivellino rapidamente se transformou em uma das principais promessas do futebol brasileiro. Antes mesmo de se firmar entre os profissionais, o então jovem jogador já despertava a atenção dos torcedores e passou a conviver de perto com o carinho da Fiel nos corredores do clube.
“Depois que me tornei mais conhecido e comecei a jogar no profissional, em 1965, a relação continuou fantástica. Em 1964, eu já estava ficando famoso por causa dos aspirantes; muita gente ia mais cedo ao estádio só para ver o Rivellino jogar. Tanto é que fui campeão paulista de aspirantes pelo Corinthians. A gente entrava no Parque São Jorge, trombava com os associados e os torcedores vinham falar comigo toda hora: ‘E aí, Riva, tudo bem? Vamos ganhar?’. Eu respondia: ‘Vamos, vamos ganhar!’. Eram papos muito legais, havia essa aproximação”, relembrou.
A proximidade entre jogadores e torcedores era uma das marcas do futebol daquela época. Sem as barreiras e protocolos comuns nos dias atuais, o contato entre elenco e arquibancada acontecia de forma espontânea, especialmente nos dias de jogos disputados no Pacaembu, palco que marcou uma geração de corinthianos.
“E com o torcedor em dia de jogo, então? Quando íamos jogar no Pacaembu, que era a nossa segunda casa, e o ônibus parava lá fora (do estádio). Tinha um corredor humano de torcedores, e a gente passava no meio deles, de braço dado. Era uma relação muito próxima“, cpmpletou.
Décadas após encerrar sua passagem pelo Timão, Rivellino recebeu, em 2014, uma das maiores honrarias concedidas pelo clube a seus ídolos ao ter seu busto eternizado no Parque São Jorge. O reconhecimento ganhou ainda mais significado por acontecer mesmo após uma despedida conturbada em 1974, que, por muitos anos, ficou marcada como uma das passagens mais dolorosas da história alvinegra.
“Uma das maiores homenagens que recebi na minha vida foi no Corinthians, na gestão do presidente Mário Gobbi. Foi a inauguração do meu busto lá no Parque São Jorge. Graças a Deus, ele está lá até hoje. Quantos jogadores passaram pelo Corinthians e quantos têm o privilégio de ter um busto lá?”, disse.
Apesar de ser uma das maiores referências da história do Corinthians, Rivellino viveu uma saída dolorosa e traumática do clube. Após a perda do título do Campeonato Paulista daquele ano para o Palmeiras, o Filho do Terrão foi apontado injustamente por parte da torcida e da imprensa como o principal culpado pela derrota.
Na finalíssima, o meia-atacante atuou de forma mais recuada para ajudar no sistema de marcação, uma escolha tática que acabou facilitando a vida da defesa adversária e gerando críticas desproporcionais à sua atuação. Em meio às polêmicas e à pressão de parte da torcida e da imprensa, Rivellino acabou sendo negociado com o Fluminense logo após a decisão.
Com o passar dos anos, a relação entre Rivellino e a torcida passou por um processo de reconciliação. O ex-jogador relembrou que, embora tenha sido alvo de críticas e cobranças após deixar o clube alvinegro, recebeu demonstrações de carinho e reconhecimento que ajudaram a ressignificar aquele momento difícil de sua trajetória.
“Uma vez, inclusive, a Globo fez uma matéria sobre a maior injustiça do futebol brasileiro, que foi a maneira como eu saí do Corinthians. Fizeram uma entrevista comigo, e tinha uma galera da Gaviões da Fiel presente. Na época da minha saída, chegaram a me chamar de ‘Ruinzinho do Parque’, mas, depois que saí, ainda joguei contra o Corinthians e fiz uns quatro gols. Aí essa galera veio até mim pedir desculpas. Eu falei: ‘Para mim está tudo ótimo, meu coração é bom e não tenho problema nenhum’. Foi muito legal a maneira como eles se dirigiram a mim”, recordou.
“Mas a homenagem do Mário Gobbi foi demais. Tenho até um vídeo meu chorando no dia. Faz pouco tempo que revi esse vídeo. É algo que você não espera e que marca para sempre. Fiquei ao lado de lendas como Baltazar e Luizinho, jogadores antigos que tive a honra de conhecer e com quem cheguei a jogar. Peguei o Cabeção, joguei com o Luizinho. Essa homenagem marcou muito a minha vida”, finalizou.
Com a camisa alvinegra, o ídolo atuou em 474 partidas, sendo 467 delas como titular. Além disso, anotou 144 gols e distribuiu 120 assistências. Ao longo de dez anos no clube, conquistou três títulos: o Torneio Rio-São Paulo de 1966, o Torneio do Povo de 1971 e o Torneio Laudo Natel de 1973.











