
O ex-jogador do Corinthians na década de 1970, Vaguinho, relembrou das finais do Paulistão de 1977, que encerrou o jejum corinthiano de quase 23 anos sem títulos. O ex-atacante, que atuava como ponta direita, falou sobre a briga que teve com Oswaldo Brandão, técnico do Timão à época, que deixou Vaguinho no banco no segundo jogo da final contra a Ponte Preta.
“O meu sentimento era de ódio, porque eu sofri muito. Quando eu fiz aquele gol, a minha intenção era jogar a camisa no Brandão, dar um tchau para ele e ir embora. Eu, quando corri, eu dei meia volta, lembrei da minha esposa as palavras que ela tinha dito e fui vibrar com a torcida”, iniciou Vaguinho, em entrevista ao Conexão Fiel.
“A gente é jogador de bola, mas não pode brincar com o sentimento da gente. É muito sério. Eu podia ter um infarto, eu podia ter sofrido antes do jogo, podia ter complicado mais para ele. Se eu fosse reserva, aquele medíocre ou meio medíocre, ou simplesmente tampão, eu concordaria. Mas eu era absoluto, eu era o principal. Pedir para o Vaguinho, naquele tempo, para ficar no banco… só o Brandão mesmo”, completou.
O ex-atleta estava suspenso no primeiro jogo das finais, vencido por 1 a 0 pelo Corinthians, no Estádio do Morumbi, e foi preterido pelo treinador no jogo seguinte. Ele ainda contou que esteve perto de deixar o clube após a decisão, mas foi convencido do contrário por sua esposa. Na volta, o atacante entrou no lugar do lesionado Palhinha e marcou o gol que evitou a eliminação do Corinthians. A Ponte Preta venceu por 2 a 1, fazendo-se necessário o terceiro jogo, de desempate.
Vaguinho foi contratado pelo Corinthians em 1971, junto ao Atlético Mineiro, e permaneceu no Parque São Jorge até 1981. O ex-atacante participou de momentos importantes da história do Corinthians, como a perda da final do Paulistão de 1974 para o Palmeiras, a Invasão Corinthiana no Maracanã, pela semifinal do Brasileirão de 1976 e o título do Campeonato Paulista de 1977. Em outro momento, ele se declarou para o clube e contou o importância do Timão em sua vida.
“Olha, me emocionei. Essa camisa do Corinthians é uma coisa que não tem explicação. Eu digo isso porque eu joguei em dois times de massa. E eu digo e repito, não me desfazendo do Atlético-MG, mas eu achava, quando eu estava no Atlético, menino ainda, que era o maior time do mundo. E por sinal, preto e branco. E quando eu visei a possibilidade de vir para o Corinthians, eu estava na Seleção Brasileira e falei com meu pai: ‘não’. E eu me arrependo até hoje de ter falado não para o meu pai. Porque eu descobri essa grandeza. O Corinthians não é time. É uma vida, é um amor, é uma paixão. Olha, pode ser quem for, o que passou, ainda mais nós, que ficamos com essa marca, o coração balança”, declarou.
Durante o seu período no Corinthians, Vaguinho jogou ao lado de nomes como Rivellino, Zé Maria e Wladimir. Antes mesmo de chegar ao Timão, ele explicou optou por viver o Corinthians e que isso foi fundamental para entender o significado do clube e ter sucesso em sua passagem.
“Eu pedi ao (presidente) Vicente Matheus uma semana de folga. Ele queria que eu viesse direto, mas eu pedi uma semana para começar a saber o que é o Corinthians, para depois me doar e abrir meu coração para o clube. Eu não podia chegar aqui cru, sem saber a grandeza desse time. Foi o que eu fiz, e por isso que eu pude viver essas grandezas. Eu precisava estudar para saber o que eu estava representando. Quando eu cheguei, tinham cinco ou seis jogadores da Seleção, inclusive tricampeões. Era um time de respeito. Então eu tinha que aprender o que era o Corinthians para me doar e saber receber dessa torcida o que eles tinham para me dar. Foi magnífico conhecer o Sport Club Corinthians Paulista antes de tudo“, relembrou.
No dez anos em que permaneceu no Corinthians, o ex-atleta disputou 551 partidas e marcou 110 gols, que o tornam o 14º maior artilheiro da história do clube. Vaguinho é também o nono jogador que mais atuou pelo Timão, liderando o ranking dos atacantes que mais vestiram a camisa alvinegra. O ex-ponta-direita se destaca ainda na lista de maiores garçons do Corinthians, com 104 assistências.
“Olha, (esses números) são para poucos. Sinceramente, me desculpe, nós tivemos grandes ídolos, e eu vou falar de um cara que eu acho que foi um dos maiores jogadores do mundo. Eu tive alguns problemas com ele, mas eu tenho no meu coração uma gratidão muito grande a ele e tive o prazer de ter jogado com o Rivellino. Mas se for medir a grandeza dele com a minha grandeza no Corinthians, eu tenho muito mais em termos de participação, em termos de gols. E pela posição que eu joguei, eu não joguei de frente de gol, eu joguei de lado. Eu sou o sexto em assistências, de milhares de jogadores que passaram, é muita coisa”, comentou.
“Das 551 partidas que eu joguei pelo Corinthians, eu fiquei de fora 146 jogos. Eu tive um crescimento e, depois de 78, eu tive uma baixa. Foram me tirando do time, sendo que eu, nesse período de 10 anos, fui o cara que mais vestiu a camisa, o artilheiro desses 10 anos. Então eu honrei, eu sinto isso. Eu falo com muito orgulho, eu honrei a camisa do Corinthians. O corinthiano, sinceramente, tem que me agradecer um pouquinho, porque foram dez anos em que eu fui artilheiro, em que eu mais joguei. Ninguém me bateu nesses dez anos. E foi com muito orgulho e com muito sacrifício. Dor eu não digo, porque é uma glória vestir essa camisa. Então por isso eu peço e reivindico aquilo que eu tenho direito (o busto)” continuou.
Até o momento, apenas 13 ídolos do futebol, ao longo dos mais de 115 anos de história do Corinthians, possuem um busto no Parque São Jorge, sede social do clube. Nomes como Neto, Neco, Cláudio, Baltazar, Luizinho, Sócrates, Rivellino, Teleco, Ronaldo Giovaneli, Marcelinho Carioca, Wladimir, Zé Maria e Basílio já foram homenageados pelo Timão.
O Corinthians hoje
Vaguinho também analisou a performance do Corinthians nos dias atuais. Na opinião do ex-atacante, os atletas precisam aplicar a mesma dedicação que mostram em clássicos e em jogos importantes nas partidas contra clubes de menor expressão.
Além disso, ele afirmou que o clube sofre com a falta de jogadores no elenco, mas confia no choque de ânimo que a contratação de Fernando Diniz pode gerar nos atletas.
“O Corinthians é uma interrogação muito grande. Parece que quando joga contra um time pequeno, os jogadores não dão muito valor, se acanham, parece que desaprendem. Agora quando pega um clássico… eu sei o resultado do jogo pela atitude do Corinthians. Eu falei que ia ganhar tranquilo contra o Platense. E contra o Palmeiras não perde, porque o Palmeiras é medíocre contra o Corinthians, principalmente jogando na Arena. Aí transforma o Corinthians. O Corinthians vira aquele Corinthians que nós queremos, que o torcedor quer, que é o Corinthians que tem que ser. Você viu o espírito no primeiro jogo da Libertadores. Mudou. Até o Garro, que não vinha jogando bem, se transformou. Contra o Palmeiras, a partida que ele jogou, ele tem que dar mais. Ele tem que transformar o respeito que o corinthiano dá para ele. O Matheuzinho também, ele estava transtornado, não admitia aquilo que estava acontecendo. Então, essa transformação tem que ser aplicada“, opinou .
“O Corinthians não tem plantel para disputar pontos corridos. Pegou o Dorival, que não sabe disputar pontos corridos, é um cara para jogo curto. Eu acho que com o Diniz dá para ganhar. O Diniz é fera, ele é leão, vai comer o pessoal lá do Corinthians. É disso que precisa. Ele pode ser louco, desesperado, pode ser o que for, como ele já mostrou no Fluminense, no Vasco. Ele tem que comer a orelha desses caras. Ele é o treinador típico que o Corinthians precisa. Pode até perder jogos, mas com certeza não vai perder entregando. Ele já está mostrando quem ele é. E se o jogador não correr com ele, não é o Diniz, é o jogador mesmo. Eu vejo o banco do Corinthians, muitas vezes, o cara sentado lá, parece que está em outro mundo. O Diniz vai jogar toda a energia dele no Corinthians. Ele é Corinthians, já jogou no Corinthians. Ele sabe o que é o Corinthians. Ele vai botar o pessoal na Arena e se não correr e não brigar lá, ele vai fazer que nem o gladiador, ele vai matar os meninos”, disse o ex-atleta.
Atualmente, o Corinthians lidera o Grupo E da Copa Libertadores da América. Em contrapartida, figura apenas na 16ª colocação do Campeonato Brasileiro, com 11 pontos em 11 jogos, ficando somente uma posição da zona do rebaixamento.
Entre os jogadores do atual elenco, Vaguinho destacou o atacante Yuri Alberto, que seria o “coração corinthiano” dentro de campo, nos mesmos moldes dos atletas da década de 1970. Ele ainda fez uma série de elogios ao atual camisa 9 do Timão.
“Hoje tem um jogador típico do Corinthians, que é coração corinthiano, que é o centroavante, o Yuri. Ele perdeu um gol contra o Palmeiras, mas ele é perdoável pela garra e pela gana, pelo espírito que ele é. E corinthiano, jogador do Corinthians, tem que ter esse espírito. Para jogar no Corinthians tem que ter gana, tem que ter Zé Maria, tem que ter Wladimir. Tem que ter Vaguinho e tantos outros. O Corinthians é isso. A prova que tiveram agora contra o Palmeiras, com nove homens, segurar aquele time chato para caramba, e o juiz atrapalhando. Esse é o Corinthians que todo mundo quer ver”, disse Vaguinho.
Vaguinho deixou o Corinthians em 1981 e retornou para o Atlético Mineiro. No ano seguinte, transferiu-se para o São Caetano, clube no qual encerrou a carreira. Pelo Timão, o ex-atacante conquistou os títulos paulistas de 1977 e 1979, a Taça Governador do Estado 1977, a Copa São Paulo 1975 e o Torneio Laudo Natel 1973.










