As saídas de Pedro Morelli e Lucas Flora do Corinthians ocorreram em meio a situações que extrapolaram as questões esportivas e acabaram interferindo diretamente na rotina das categorias de base do clube.
Em entrevista ao UOL, Erasmo Damiani, responsável pela gestão da formação corintiana, falou sobre os bastidores dos dois episódios. O dirigente explicou que o Corinthians tentou encontrar alternativas antes de optar pelo encerramento dos vínculos, mas avaliou que a continuidade dos impasses poderia trazer consequências para o planejamento do departamento.

Embora tenham ocorrido em circunstâncias distintas, os casos de Morelli e Flora geraram problemas que ultrapassaram a relação individual entre atletas e clube. No primeiro episódio, o Corinthians acabou afastado do MCF (Movimento dos Clubes Formadores) após um conflito envolvendo o Palmeiras. Já a situação de Flora teve como ponto central uma divergência relacionada à documentação e à inscrição do jogador em competições oficiais.
De acordo com Damiani, a diretoria procurou caminhos para evitar que os conflitos chegassem ao rompimento. No entanto, diante da falta de um acordo, o clube precisou considerar também os efeitos que a manutenção das disputas poderia causar sobre os demais atletas das categorias inferiores.
A história envolvendo Morelli começou quando o atacante chegou ao Corinthians depois de defender o Palmeiras. O clube alviverde acusou o rival de tentar levar um jogador que ainda possuía vínculo com a equipe. O Corinthians contestou a acusação, e a questão acabou sendo discutida dentro do MCF.
A disputa não ficou restrita aos dois clubes. Em janeiro de 2025, o Corinthians foi retirado do movimento, deixando de participar das competições organizadas pela entidade. A consequência foi uma redução no calendário das equipes de formação, que passaram a ter como principais compromissos os torneios promovidos pela Federação Paulista de Futebol e pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol).
Quando assumiu a função no Corinthians, Damiani já encontrou o problema em andamento. Mesmo assim, o executivo participou das tentativas de aproximação entre as instituições e das negociações que buscavam encerrar o conflito. Segundo ele, houve um momento em que um acordo pareceu próximo, mas as conversas acabaram travadas pela falta de concessões suficientes de ambos os lados.
“Eu acho que a condução ali poderia ter chegado a um denominador comum. Mas dos dois lados. O Corinthians tentou se aproximar do Palmeiras e chegou muito próximo. Só que, a partir do momento em que a coisa não aconteceu, cada parte também não cedeu em algum ponto”, disse o executivo.
As conversas também envolveram a família de Morelli, conforme relatou o dirigente. Apesar das diferentes tentativas de solução, o impasse permaneceu e o Corinthians continuou impedido de participar dos torneios ligados ao movimento. Para Damiani, a situação passou a representar um obstáculo para a formação dos jogadores, principalmente pela diminuição da quantidade de partidas de alto nível.
O vínculo de Morelli com o Corinthians chegou ao fim em agosto de 2026. O atacante tinha 15 anos. Poucas horas depois da oficialização da saída, o clube paulista voltou a ser integrado ao MCF.
Segundo Damiani, a decisão não foi analisada apenas sob a perspectiva do jogador envolvido. O dirigente afirmou que a situação precisava ser avaliada levando em conta todo o grupo de atletas que dependia do calendário de competições para seguir seu processo de formação.
“Eu tenho 330 atletas. Eu prejudico 329 e beneficio um ou prejudico um e beneficio 329? O atleta também estava sendo prejudicado”, comentou o dirigente.
A possibilidade de manter o conflito por mais tempo, na avaliação do executivo, significaria prolongar a ausência do Corinthians em torneios considerados importantes para o desenvolvimento dos jovens. O problema, portanto, poderia atingir atletas de diferentes faixas etárias dentro da estrutura do clube.
“O Corinthians tentou de todas as formas, mas as coisas não aconteceram. Chegou uma hora em que precisávamos tomar uma decisão. Iríamos deixar 330 atletas dois ou três anos sem jogar competições de nível alto em prol de um?”, prosseguiu.
Mesmo com o afastamento do movimento e a possibilidade de perder jogadores para outras equipes, Damiani disse que o Corinthians não adotou uma política de buscar atletas de clubes rivais como forma de compensação. Para o dirigente, a postura deveria ser mantida independentemente de eventuais perdas sofridas pela própria base.
“Pegaram alguns jogadores nossos, e isso era normal porque estávamos fora do movimento. Eu também poderia ter feito isso, mas sempre briguei para não tirar jogador dos outros. Não posso mudar porque pegaram um meu. É o meu modo de pensar”, afirmou Damiani.
O representante de Morelli, Manoel Barboza, foi procurado pelo UOL. O empresário citou uma entrevista concedida ao ge.globo, em janeiro, na qual fez críticas a João Paulo Sampaio, diretor das categorias de base do Palmeiras e integrante do conselho de ética do MCF. Na ocasião, Barboza questionou a conduta do dirigente e afirmou que não recebeu resposta após diversas tentativas de contato.
O empresário, contudo, preferiu não acrescentar novos comentários sobre o episódio ao UOL.
A situação envolvendo Lucas Flora teve uma origem diferente. O conflito começou a partir da inscrição do jogador nas equipes sub-12 e sub-13 do Campeonato Paulista. O Corinthians sustentou que os documentos necessários não haviam sido apresentados com as assinaturas dos responsáveis. A família, por outro lado, apresentou uma versão diferente e afirmou que o próprio clube optou por não finalizar o registro.
O impasse teve impacto imediato na participação do atleta no Estadual, especialmente nas primeiras rodadas. Posteriormente, a relação entre as partes foi encerrada. Segundo Damiani, a família decidiu retirar Flora dos treinamentos no Parque São Jorge e comunicou o fim do vínculo com o Corinthians.
Flora estava no clube desde 2021 e era apontado internamente como um dos jogadores de destaque da formação. O episódio envolvendo sua documentação, porém, acabou provocando o rompimento.
Na versão apresentada por Damiani ao UOL, os documentos necessários deveriam ter sido entregues ainda em janeiro, mas só chegaram ao Corinthians no mês seguinte. Por causa disso, o jogador não teria sido inscrito dentro do prazo estabelecido para o Campeonato Paulista. O dirigente ressaltou, entretanto, que Flora posteriormente voltou a participar das atividades e chegou a treinar com uma categoria superior à sua.
“Nós tentamos de todas as formas. A documentação que precisava ser entregue em janeiro só foi entregue pela família em fevereiro. Havia um prazo de inscrição no Estadual, ele ficou uma ou duas rodadas fora e depois começamos a colocá-lo. Ele estava treinando em uma categoria acima”, comentou.
Damiani afirmou que o Corinthians tentou encontrar uma maneira de preservar a permanência do jogador, mas as conversas com os familiares não resultaram em um entendimento. Diante disso, o vínculo acabou sendo encerrado.
Dias depois, a família de Flora publicou críticas direcionadas a Damiani e ao presidente Osmar Stabile no perfil do jogador nas redes sociais, que é administrado pelos pais. A manifestação foi publicada em 9 de julho de 2026. Confira abaixo o texto divulgado na íntegra:
“O diretor da base, Erasmo Damiani e seu chefe Osmar Stabile parece que passam a semana inteira só pensando em matérias fantasiosas para publicar na imprensa, usando da imagem e força da instituição Corinthians para mentir e se promover.
Até porque esse povo, como já é muito rodado no mundo do futebol, sabe muito bem como jogar esse tipo de jogo que, a família, prefere não fazer parte.
POR ISSO, É MELHOR FICAR COM A NOSSA PAZ
Mas toda hora aparece uma mentira diferente:
“A FAMÍLIA NÃO QUIS ENTREGAR A DOCUMENTAÇÃO”
“A FAMÍLIA TIROU O GAROTO DO CLUBE SEM COMUNICAR.”
Mentiras atrás de mentiras desse povo.
Acredita quem quer!
Mas por que não fala também do contrato do atleta que tentaram mudar na calada da noite, sem o consentimento dos pais?
Por que essa diretoria nunca cumpriu com o contrato do atleta?
Por que não fala dos e-mails enviados pela família?
E das outras questões que eles sempre se esquivaram, mudando o assunto e inventando que o Flora já tem outro clube, etc?
É muito fácil contar uma história recheada de mentiras para a torcida quando só um lado tem voz.
Sabemos que essas pessoas são capazes de qualquer coisa para se manter no poder, mesmo que tenham que mentir repetidamente.
E o mais grave:
USAR O NOME E A FORÇA DO CORINTHIANS PARA SE DEFENDEREM, ESCONDENDO OS PRÓPRIOS ERROS.
E nós sabemos que a instituição Corinthians também é vítima dessas pessoas.
Tentamos falar com o presidente Osmar Stabile.
Mandamos e-mails e pedimos que o clube olhasse o que estava acontecendo com o Flora.
Recebemos apenas um “OK” como resposta ao e-mail, recebido pela secretária do presidente.
E sobre a documentação que o diretor diz que a família não entregou, fica uma pergunta que nunca foi respondida:
SE O PROBLEMA ERA A DOCUMENTAÇÃO, POR QUE O FLORA TAMBÉM NÃO FOI INSCRITO NAS COMPETIÇÕES QUE NÃO PRECISAVAM DELA?
Até hoje, essa resposta não apareceu.
Nunca pedimos um único real a essa diretoria
Nunca pedimos qualquer outro benefício.
Por respeito ao clube
Por respeito à torcida
E, principalmente, pelo carinho que nosso filho sempre teve pelo Corinthians
Optamos pelo silêncio, até porque as ações desastrosas desse bando, fala por si só.”
Fonte: Central do Timão














