Curaçao faz história ao se tornar a menor nação a se classificar para a Copa do Mundo de 2026. A ilha caribenha, historicamente ligada ao futebol brasileiro — simbolizada pela imagem de Pelé no tradicional Netto Bar de Willemstad —, vivencia uma transformação. A qualificação inédita tem fortalecido a identidade local e mudado o foco da torcida, como expressa Gilbert Martina, presidente da Federação de Futebol de Curaçao: “Tradicionalmente há três times que torcemos. Eu sou torcedor do Brasil, depois Holanda, Argentina… Mas agora vai ser Curaçao, e depois os demais.”
Conexões Culturais e Geográficas
A relação de Curaçao com o Brasil transcende o futebol, abrangendo aspectos como culinária, música e linguagem. O “papimento”, idioma local, incorpora elementos do português, resultado da chegada de escravizados de colônias portuguesas ao longo da história.
Situada no sul do Caribe, ao norte da Venezuela, Curaçao possui uma população de 185.491 habitantes. Desde 2010, é uma nação autônoma dentro do Reino dos Países Baixos. Curiosamente, a maioria dos jogadores da seleção nasceu na Holanda, com Tahith Chong sendo o único originário da ilha a integrar o elenco, tendo se mudado para a Europa ainda criança.
O Netto Bar, o mais antigo de Curaçao, com sua icônica foto de Pelé e decoração futebolística, é um testemunho da admiração de décadas. Em 1959, o Santos, com Pelé, visitou Willemstad, um evento patrocinado pelo governo local que cimentou a influência brasileira no esporte da ilha.
O Cenário do Futebol Interno
A realidade do futebol local em Curaçao contrasta com a de seus atletas que atuam em ligas estrangeiras. Na “Promé Division”, a primeira divisão curaçauense, muitos jogadores conciliam a paixão pelo esporte com outras profissões, dada a dificuldade de viver exclusivamente do futebol.
Na-Jir Peny, meio-campista do Scherpenheuvel, exemplifica essa dualidade. Trabalhador bancário durante o dia, ele dedica as noites aos treinos e jogos. “Aqui não vivemos de futebol. Nós temos que trabalhar durante o dia e praticar [o futebol] de tarde, de noite. Não vivemos de futebol. É um suporte extra. Não vou deixar o meu trabalho para viver disso. Isso não é possível aqui”, explicou Peny.
O Legado e o Orgulho da Classificação
A classificação inédita para a Copa do Mundo superou as limitações do esporte local, gerando um profundo sentimento de identificação nacional. Para Na-Jir Peny, foi a concretização de um sonho: “Foi fantástico. Quando você é pequeno, sonha com isso, mas sabe que é difícil. Foi uma alegria total. Pode ter mais interesse por pessoas de fora também para saber como as coisas são aqui em Curaçao.”
A inspiração brasileira, que moldou gerações, continua presente. Gilbert Martina, presidente da Federação, recorda a influência do Brasil campeão mundial de 1970, transmitida por seu pai. Essa admiração se reflete até nos nomes de dois de seus filhos, Jairzinho e Jorginho, em homenagem a ícones brasileiros.
Fonte: https://ge.globo.com













