
O Corinthians vive um momento de forte pressão financeira e perda de competitividade econômica em relação aos principais clubes do país. Isso é o que aponta a 17ª edição do Relatório Convocados, realizado em parceria com a Galapagos Capital e a Outfield. O estudo traça um panorama das finanças do futebol brasileiro e acende sinais de alerta para a situação do clube alvinegro.
Se no levantamento anterior o Timão era destaque pela arrecadação recorde e pela geração de caixa, a edição de 2025 apresenta um cenário de retração nas receitas, aumento do endividamento e riscos relevantes frente a eventuais regras mais rígidas de Fair Play Financeiro.
O Meu Timão separou abaixo os principais tópicos do relatório relacionados à dívida corinthiana. Confira!
Dívida
A dívida líquida do Corinthians voltou a crescer em relação ao relatório anterior, seguindo em uma trajetória ascendente. O passivo alvinegro saiu de R$ 2,343 bilhões para R$ 2,466 bilhões, um aumento nominal de R$ 123 milhões que mantém o clube entre os mais endividados do futebol brasileiro.
Apesar disso, o clube do Parque São Jorge deixou de ocupar o posto de maior devedor do país, sendo ultrapassado por Atlético-MG (R$ 2,632 bilhões) e Botafogo (R$ 2,525 bilhões, que registrou o principal aumento). Atualmente, estes são os únicos três clubes da Série A com dívidas que superam a barreira dos R$ 2 bilhões, concentrando, sozinhos, 43% de todo o endividamento da elite nacional.
O valor evidencia que o processo de recuperação financeira ainda não conseguiu interromper a trajetória de crescimento das obrigações acumuladas. O cenário se torna ainda mais preocupante quando observado em conjunto com outros indicadores do levantamento. Em termos financeiros, não basta apenas reduzir o ritmo de crescimento da dívida: é fundamental aumentar a capacidade de geração de caixa para que a instituição consiga honrar seus compromissos de maneira verdadeiramente sustentável no dia a dia.
Como um dos poucos pontos positivos apresentados pelo relatório, destaca-se a redução das despesas financeiras da agremiação. Os gastos relacionados a juros, empréstimos, correções monetárias e encargos recuaram de R$ 368,6 milhões para R$ 276 milhões. Apesar dessa melhora operacional, o Corinthians ainda registra a terceira maior despesa financeira de todo o futebol brasileiro, ficando atrás justamente de Botafogo e Atlético-MG.
Folha salarial cresce e segue entre as maiores do país
Os custos com pessoal também aumentaram. A folha do Corinthians fechou o período em R$ 571 milhões, acima dos R$ 429 milhões registrados no levantamento anterior. Atualmente, a folha corinthiana é a terceira maior do Brasil, atrás apenas de Palmeiras (640) e Flamengo (788).
Mesmo com o crescimento nominal, o relatório destaca que Corinthians e São Paulo foram os únicos clubes que conseguiram registrar uma redução proporcional dos gastos com pessoal na comparação interna do período analisado.
O estudo aponta que o gasto com pessoal representa 39% da receita total do clube, índice considerado seguro dentro dos parâmetros de sustentabilidade financeira. Ainda assim, os analistas alertam para a inflação salarial crescente do mercado brasileiro, que pressiona equipes com menor capacidade financeira a recorrer ao endividamento para manter a competitividade.
Retração nas Receitas
Após alcançar uma arrecadação recorde superior a R$ 1,1 bilhão em 2024, o Corinthians registrou queda em seu faturamento total. Segundo o relatório, a receita recuou para R$ 987 milhões em 2025, tornando o clube um dos poucos grandes do país a apresentar retração nesse indicador. O dado chama atenção porque a redução ocorreu em um período no qual diversas equipes ampliaram suas receitas por meio de patrocínios, premiações e negociações de atletas.
Embora a receita recorrente tenha permanecido em patamar elevado, na casa dos R$ 879 milhões, o estudo aponta uma dependência cada vez maior dessas fontes tradicionais de arrecadação. As receitas obtidas com transferências de jogadores representaram apenas 11% do faturamento total, percentual considerado baixo para um clube que historicamente utiliza o mercado de atletas como uma importante ferramenta de equilíbrio financeiro.
Os direitos de transmissão e premiações renderam R$ 305 milhões ao Corinthians, enquanto as receitas comerciais somaram R$ 332 milhões. Neste último caso, houve redução de R$ 25 milhões em relação ao relatório anterior, indicando perda de força em uma das áreas que mais cresceram entre os grandes clubes brasileiros nos últimos anos.
Resultado operacional EBITDA
O principal sinal de alerta do relatório aparece na geração de caixa operacional. O EBITDA, indicador utilizado para medir a capacidade de uma instituição gerar recursos por meio de suas atividades principais, despencou de R$ 338 milhões para apenas R$ 74 milhões. Nenhum outro clube analisado apresentou uma queda tão expressiva no período.
Na prática, o resultado significa que o Corinthians passou a produzir muito menos recursos para financiar suas atividades, investir no futebol e reduzir seu elevado endividamento. Quanto menor o EBITDA, menor tende a ser a margem de segurança financeira para lidar com imprevistos, realizar investimentos ou absorver custos extraordinários.
O próprio relatório atribui essa queda principalmente à redução das receitas com transferências de atletas. Como as vendas tiveram peso muito menor no orçamento em comparação ao ano anterior, a geração de caixa foi diretamente impactada. O efeito acaba sendo sentido também em outros indicadores financeiros, especialmente aqueles relacionados à capacidade de pagamento e ao controle da alavancagem (relação entre dívidas e receitas).
Baixa eficiência esportiva é destaque negativo
Além das questões financeiras, o estudo também analisou a eficiência esportiva dos clubes brasileiros. Nesse quesito, o Corinthians aparece entre os casos mais preocupantes do levantamento. O relatório conclui que o clube arrecada valores compatíveis com a elite do futebol nacional, mas não consegue transformar essa vantagem econômica em desempenho esportivo proporcional.
No cruzamento entre orçamento disponível e resultados obtidos dentro de campo, o Timão apareceu apenas na 13ª colocação. A análise levou os responsáveis pelo estudo a posicionarem o clube no quadrante oposto ao da eficiência esportiva, classificando o desempenho como inferior ao esperado para uma instituição que possui uma das maiores receitas e folhas salariais do país.
O diagnóstico final aponta que a força da torcida e a capacidade de arrecadação continuam sendo os principais ativos do Corinthians. Entretanto, o crescimento da dívida, a queda na geração de caixa e a dificuldade para converter investimento em resultados esportivos formam um conjunto de desafios que deverá acompanhar o clube nos próximos anos.
Corinthians seria reprovado em critérios de Fair Play Financeiro
Uma das grandes novidades da edição de 2025 do relatório foi a simulação de regras rígidas de Fair Play Financeiro, semelhantes às adotadas em algumas das principais ligas do mundo. O objetivo do estudo foi avaliar como os clubes brasileiros se posicionariam caso fossem submetidos a mecanismos mais severos de controle, e o diagnóstico final não foi favorável ao Corinthians.
O clube recebeu a avaliação de “aprovado com dúvida” no quesito de controle de gastos com o elenco. No entanto, acabou formalmente reprovado nos critérios de equilíbrio financeiro, endividamento e alavancagem. Segundo os analistas, a forte queda do EBITDA (ganho antes de juros, impostos, depreciação e amortização) somada ao crescimento contínuo das dívidas cria um cenário incompatível com os parâmetros de sustentabilidade exigidos internacionalmente.
Nos modelos globais de Fair Play Financeiro, a lógica de funcionamento é simples: os gastos com o futebol precisam ser rigorosamente compatíveis com a capacidade de arrecadação e geração de recursos da instituição. Quando um clube passa longos períodos acumulando déficits ou inflando seu nível de endividamento sem apresentar contrapartidas financeiras operacionais, cresce drasticamente o risco de sanções esportivas e restrições administrativas.
Para justificar o desempenho desfavorável do clube do Parque São Jorge na simulação, o relatório elencou quatro problemas estruturais que impactaram negativamente as finanças alvinegras:
- Demonstrações contábeis sob desconfiança: Balanços publicados com ressalvas por parte dos auditores independentes;
- Queda no faturamento: Redução das receitas totais e estagnação das receitas recorrentes do clube;
- Seca no caixa: Forte retração na geração de caixa operacional no dia a dia;
- Alavancagem perigosa: Crescimento contínuo do endividamento geral e manutenção de elevados índices de alavancagem financeira.
Avaliação final
Em linhas gerais, o relatório conclui que a atual engenharia financeira do Corinthians está no limite operacional. A combinação entre uma dívida sufocante e a baixa capacidade de gerar receitas imediatas coloca o clube em uma posição de extrema vulnerabilidade.
O diagnóstico deixa claro que, caso o Fair Play Financeiro fosse aplicado de forma rígida e punitiva no futebol brasileiro hoje, o clube do Parque São Jorge dificilmente escaparia de duras sanções administrativas e esportivas. Diante disso, a reestruturação das dívidas torna-se uma obrigação urgente para a sobrevivência competitiva do clube.
Vale destacar que as contas do Corinthians referentes a 2025 foram aprovadas pelo Conselho Deliberativo. Caso fossem reprovadas, o presidente Osmar Stabile e integrantes da diretoria financeira poderiam ser afastados de suas funções e se tornar inelegíveis para cargos de gestão no clube.











