Sete minutos foram suficientes para notar as propostas diferentes de Brasil e França, um contraste tão claro quanto a distância de gosto entre os uniformes que a mesma empresa desenhou para as seleções que se encontraram em Boston (EUA). No caso brasileiro, um gosto que precisaria melhorar muito para ficar ruim. A França tentava se estabelecer com posse no campo de ataque, enquanto o Brasil se posicionava para o desarme e a saída em velocidade. Vinicius Jr.a foi lançado em situação de um contra um, perdeu a bola e a oportunidade, mas revelou sem rodeios o que Ancelotti preparou para o amistoso.
Na falta de criatividade para algo melhor, alguém diria que a seleção brasileira, herdeira do jogo bonito, “entregou a bola” para seu adversário num triste sinal dos tempos. Seria meia-verdade, porque a escolha não expõe um mau uso de recursos futebolísticos por parte de um treinador medroso, mas uma tentativa de bom uso das características dos jogadores disponíveis dentro de um projeto de pouca idade e exigência máxima. Com mais tempo (o que pode acontecer para a Copa do Mundo de 2030, caso se confirme a renovação de seu contrato), Ancelotti talvez investisse na construção de uma outra ideia de time, mas a CBF jogou mais da metade do quadriênio no lixo.
A França, ao contrário, realiza o melhor trabalho de seleções dos últimos três ciclos de Copas. Não há garantia de que chegará a mais uma final, porque o futebol nem sempre respeita os empreendimentos que reúnem coerência e competência, mas um amistoso às portas do Mundial pode ser bastante ilustrativo. De um lado, as ideias, a clareza, a execução reconhecível. Do outro, a obrigação de ser impecável para buscar o equilíbrio competitivo. A jogada do gol da França poderia ter tido autoria brasileira pouco antes, quando o desarme de Vinicius propiciou a finalização de Gabriel Martinelli, para fora. Quando Tchouaméni roubou a bola de Casemiro na região central, o passe de Dembélé para Mbappé não permitiu dúvidas, apenas vã esperança, quanto ao desfecho. O toque por cima de Ederson foi como um autógrafo.
A entrada de Luiz Henrique no lugar de Raphinha injetou coragem em um time tímido durante o primeiro tempo. Alguns minutos de intensidade produziram duas boas chances e uma grande transformação: a expulsão de Upamecano por falta em Wesley. Em vantagem numérica desde o minuto 55, o Brasil se viu, pela primeira vez na tarde, em condições de impor sua forma de jogar. O que se viu foi o oposto. Num contra-ataque em 4 contra 3, Olise e Ekitiké construíram um gol que mede a distância entre os desempenhos coletivos dos times em campo. Para Ancelotti, um desgosto semelhante a quando a pessoa na mesa vizinha pede queijo ralado para uma massa com frutos do mar.
Ainda havia tempo, mas o encontro já tinha se convertido numa questão de imagem, não de resultado. O gol de Bremer, decorrência de uma falta lateral e uma finalização de Luiz Henrique, foi a senha para uma pressão brasileira nos minutos finais, trecho no qual o que saltou aos olhos foi a estrutura do time de Deschamps para seguir competindo com um homem a menos. Nada assustador, apenas a expressão de uma equipe madura e pronta para ganhar. Um conjunto aperfeiçoado pelo tempo. Para o Brasil, resta a sensação desagradável de que o caminho é longo, mas a estrada para o Mundial, infelizmente, é curta.
Próximos jogos do Brasil:
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Croácia (N) – 31/03, 21h (de Brasília) – Amistoso
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Panamá (C) – 31/05, horário indefinido – Amistoso
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Egito (N) – 06/06, 19h (de Brasília) – Amistoso










