São Paulo, setembro de 2020, auge da pandemia. Em um campo já esvaziado, o técnico puxa o garoto recém-chegado ao time profissional para uma conversa. De longe, parecia uma dura; de perto, era um conselho. Uma lição de vida, capaz de mudar a carreira de quem a ouviu.
“Está com medo do quê? Da rede social, da torcida? Ninguém vai te matar. Eles estão é loucos para te aplaudir. É só você jogar”, disparou um cheio de energia Fernando Diniz para Gabriel Sara, ainda um garoto de só um punhado de partidas pelo time principal do São Paulo.
Se existia, o medo desapareceu. No dia seguinte, o camisa 42 fez os dois gols tricolores no empate com o Santos, na Vila Belmiro, pelo Brasileirão. O São Paulo subiu de patamar, chegou a ficar até próximo do título nacional que acabou escapando na reta final. Sara desabrochou e se encontrou a ponto de, pouco mais de cinco anos depois, vislumbrar uma chance de jogar a Copa do Mundo de 2026.
Uma das novidades de Carlo Ancelotti para os últimos amistosos antes da convocação final, o hoje meia do Galatasaray briga por espaço no time que encara a França, nesta quinta-feira (26), às 17h (de Brasília), em Boston, e também Croácia, na outra terça (31), às 21h, em Orlando. No auge da carreira, Sara não esquece o professor que lhe fez abrir os olhos.
“O Diniz é um pai que eu tive. Foi extremamente importante no início da minha carreira. Foi a pessoa que teve paciência e me ajudou a amadurecer. Acreditou mais em mim do que eu mesmo acreditava naquele momento. Carrego no coração”, confidenciou o jogador, em sua primeira entrevista pela seleção, já em Orlando.
“É uma pessoa muito necessária no Brasil hoje. Muitas vezes, a gente não dá tempo para os jovens amadurecerem, realmente entregarem o que podem. Ele é uma pessoa extremamente importante para ajudar nesse desenvolvimento dos jovens, mesmo para as pessoas que precisam. A gente precisa olhar para o futebol com um lado mais humano, não só como jogadores, máquinas”.
Diniz viria a ser demitido do São Paulo meses depois de “salvar” a carreira de Gabriel Sara. A distância entre os dois naturalmente aumentou. O técnico alçou voos para outros lugares e encontrou a felicidade nas Laranjeiras, onde foi campeão carioca, da CONMEBOL Libertadores e da CONMEBOL Recopa com o Fluminense. O meia trocou a capital paulista pelo Norwich, até chamar atenção do Galatasaray e ser cobiçado por equipes maiores da Europa.
A admiração que existe de um lado é devolvida do outro.
“Você olha para o Sara e vai imaginar que ele é leitor de Tolstoi? Um dia entrei no quarto do cara, estava lá o [livro] Guerra e Paz, na metade assim. Perguntei se ele gostava, disse que sim. É um cara extremamente diferente”, contou Diniz, em entrevista ao Charla Podcast.
“Retraído, mas um puta jogador. Talvez seja o mais completo que eu trabalhei. Fazia tudo: cabeceia bem, chuta bem, é canhoto, mas sabe chutar com a direita, ele dribla, joga em qualquer lugar”.
Ancelotti enxerga o que Diniz viu lá atrás. Polivalente, Sara despertou interesse do técnico em meio às indefinições no meio-campo da seleção. A lesão de Bruno Guimarães abriu a possibilidade de testes nos amistosos de agora, nos Estados Unidos. O ex-são-paulino sonha. Quem o conhece, acredita.
Próximos jogos da seleção:
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França (N) – 26/03, 17h – Amistoso
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Croácia (N) – 31/03, 21h – Amistoso
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Panamá (N) – 31/05, horário indefinido – Amistoso












