
As conversas entre a SAFiel e a diretoria do Corinthians ganharam um novo capítulo na última segunda-feira. O grupo, que pretende assumir o controle do futebol alvinegro por meio da constituição de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), enviou uma carta ao presidente Osmar Stabile aceitando a proposta apresentada pelo mandatário, que envolve a quitação da dívida da Neo Química Arena.
A decisão atende diretamente à exigência feita por Stabile no final da última semana para dar andamento ao projeto de transformação do futebol corinthiano. Contudo, apesar de garantir que os aportes financeiros já estão alinhados, Eduardo Salusse, um dos idealizadores do movimento, enfatiza que a liberação dos recursos depende de etapas formais do processo e criticou as posturas protelatórias do clube alvinegro.
“Deixando claro: nós estamos com os investidores à disposição. Eles falaram: ‘Ligue para a gente, que, em poucos dias, o dinheiro será encaminhado’. Desde que haja boa-fé objetiva, haja segurança jurídica com as aprovações necessárias e as garantias constituídas. Esse papinho de ‘dá o cheque primeiro e eu assino depois’ é jogo eleitoral, é ‘conversa para boi dormir’ e chega a ser, em alguma medida, um desrespeito”, disse o empresário em entrevista ao canal Voz da Arquibancada FC.
Para destravar os próximos passos, a SAFiel pediu uma reunião urgente com os representantes do Timão, solicitando a definição imediata de data, horário e integrantes da comissão corinthiana. O grupo propõe a assinatura do acordo de confidencialidade (NDA) e a abertura de um data room, instrumento essencial para garantir transparência aos conselheiros, sócios e torcedores. Além disso, a iniciativa busca autorização formal para iniciar tratativas diretas com a Caixa Econômica Federal a fim de negociar a quitação, assunção ou reestruturação da dívida do estádio.
Paralelamente às tratativas institucionais e ao grupo principal de aportes, a proposta tem atraído um volume expressivo de investidores individuais e fundos interessados em participar da reestruturação. Salusse revelou que a busca por espaço no projeto é constante e que o engajamento externo sinaliza a força da iniciativa, dependendo apenas da abertura do clube para se concretizar.
“Recebemos todos os dias mensagens de pessoas querendo investir. Não é investir R$ 250, não! É gente querendo colocar R$ 50 mil, R$ 200 mil, meio milhão (de reais). Tenho mensagens pelo Instagram e pelo WhatsApp. Hoje mesmo recebi o contato de uma gestora, de um cara que conheci um tempo atrás e me disse: ‘Estou acompanhando a SAFiel de longe. Se precisar de ajuda para captação, tenho uma farta gama de pessoas interessadas em investir que posso abordar’. Aliás, esses são os investidores ‘a mais’. Não é a captação para essa antecipação que está sendo colocada como um óbice (obstáculo). Estamos à disposição, se não aparecer mais nenhuma barreira (vinda do Parque São Jorge)“, completou.
Vale lembrar que Corinthians e SAFiel se reuniram na última quarta-feira, no Parque São Jorge, para discutir os termos da proposta. Ao fim da conversa, os representantes do grupo classificaram o encontro como ‘amistoso’ e entenderam que a reunião poderia abrir caminho para novas negociações.
O vice-presidente do clube, Armando Mendonça, também avaliou o encontro de forma positiva, classificando-o como ‘produtivo’, mas manteve um tom de cautela em relação aos próximos passos. Dois dias depois, o dirigente elaborou um documento com 105 questionamentos para serem respondidos pelo movimento antes do avanço das tratativas.
Relembre a proposta da SAFiel
A SAFiel apresentou sua proposta para Osmar Stabile no dia 2 de junho, que prevê a captação de R$ 2,5 bilhões, podendo chegar a R$ 3 bilhões. Os valores seriam destinados, principalmente, para quitar as dívidas do futebol, realizar investimentos esportivos, melhorar a infraestrutura, implementar mecanismos de governança e fortalecer o clube social.
Um dos principais pontos da proposta é a influência direta do torcedor na política do clube, com investimentos a partir de R$ 250 e limites de participação por CPF. Investidores externos poderiam participar por meio de ações sem direito a voto, em caso de necessidade de complementar o montante previsto.
Outro ponto importante é a garantia de preservação da identidade do Timão. Caso assuma o controle, a SAFiel não tem a permissão de alterar elementos como nome, símbolos, cores e o próprio escudo. Em cenários de descumprimento de obrigações essenciais, problemas graves de gestão ou descaracterização da identidade institucional, o Corinthians pode ativar uma cláusula para retomar o controle para gerir o futebol.
A efetivação da operação dependeria de uma série de etapas, como a aprovação dos órgãos estatutários do Timão, a realização de uma investigação por uma empresa independente, validações regulatórias e a aprovação final dos associados em Assembleia Geral.
Por fim, a SAFiel já revelou um cronograma que detalha os prazos para que as ações previstas sejam realizadas. Para além da apresentação da proposta, que está nas mãos do Corinthians, as iniciativas aconteceriam de maneira gradual e seriam concluídas após um ano. Veja abaixo:
- Entrega da proposta: já realizada;
- Assinatura da proposta: a partir da data de aceitação;
- Instalação do sistema virtual para início das diligências: 30 dias após a aceitação;
- Conclusão da due diligence e do valuation do clube (a ser realizado por uma empresa Big Four): 180 dias após a aceitação;
- Registro dos fundos e/ou ofertas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM): entre 180 e 210 dias após a aceitação;
- Roadshow (apresentação do projeto para diversos públicos) e período de reservas: 210 dias após a aceitação;
- Anúncio dos conselheiros independentes e do CEO: 210 dias após a aceitação;
- Aprovação da SAFiel em Assembleia Geral (AG) dos associados: 300 dias após a aceitação;
- Chamada de capital para integralização dos recursos: 300 dias após a aceitação;
- Instalação da governança e início das operações: 360 dias após a aceitação.






